A teoria de Piaget divide o desenvolvimento cognitivo em quatro fases, que descrevem mudanças na maneira como crianças e adolescentes percebem o ambiente, resolvem problemas e organizam conhecimentos.

Em cada período, surgem novas capacidades de pensamento, embora o ritmo de desenvolvimento possa variar de uma pessoa para outra. O psicólogo e biólogo suíço Jean Piaget estudou como as crianças constroem explicações sobre o mundo. Para ele, o aprendizado ocorre de forma ativa: a criança observa, experimenta, compara informações e modifica o que já sabia diante de novas experiências. As idades associadas aos estágios funcionam como referências gerais, e não como prazos rígidos. Crianças da mesma faixa etária podem apresentar diferenças em determinadas habilidades, conforme suas experiências, oportunidades de interação e características individuais.

Do nascimento aos dois anos: conhecer pelos sentidos

O primeiro estágio descrito por Piaget é o sensório-motor, que ocorre aproximadamente do nascimento aos dois anos. Nesse período, o bebê conhece o ambiente por meio dos sentidos, dos movimentos e das ações realizadas sobre os objetos. Tocar, olhar, ouvir, levar objetos à boca, alcançar e movimentar materiais são formas de investigação. Aos poucos, o bebê percebe relações entre suas ações e os resultados produzidos. Ao balançar um brinquedo, por exemplo, observa que o movimento pode gerar um som. Uma conquista importante dessa fase é a permanência do objeto. Nos primeiros meses, o bebê pode agir como se um brinquedo tivesse deixado de existir quando ele é escondido.

Com o desenvolvimento, começa a procurá-lo, demonstrando compreender que o objeto permanece no ambiente mesmo fora de seu campo de visão. Também ocorre o avanço da coordenação motora e da capacidade de realizar ações intencionais. A criança deixa de responder apenas por reflexos e passa a repetir comportamentos para alcançar determinados resultados. Os educadores do Colégio Anglo São Roque, de São Roque (SP), observam que a exploração tem papel importante nesse período. "O bebê aprende ao interagir com pessoas, objetos e espaços. Por isso, experiências seguras, variadas e adequadas à idade contribuem para o desenvolvimento das primeiras relações de causa e efeito", explicam.


Dos dois aos sete anos: linguagem e representação O estágio pré-operacional ocorre, em geral, dos dois aos sete anos. A ampliação da linguagem é uma das principais características desse período. A criança passa a utilizar palavras, imagens e símbolos para representar pessoas, objetos e situações que não estão presentes. As brincadeiras de faz de conta mostram essa capacidade. Uma caixa pode representar um carro, uma colher pode se transformar em microfone e a criança pode assumir personagens durante uma atividade. Essas situações indicam que ela consegue atribuir novos significados aos objetos. O pensamento ainda está muito ligado à própria perspectiva.

Piaget utilizou o conceito de egocentrismo cognitivo para explicar a dificuldade infantil de compreender que outra pessoa pode perceber uma situação de maneira diferente. Isso não significa egoísmo, mas uma limitação própria do desenvolvimento daquele período. A criança também pode concentrar sua atenção em apenas um aspecto do problema. Diante de dois copos com a mesma quantidade de água, por exemplo, pode acreditar que o recipiente mais alto contém mais líquido, mesmo que a água tenha apenas sido transferida de um copo para outro.

Nessa fase, explicações concretas, brincadeiras simbólicas, histórias e materiais visuais ajudam na compreensão. Perguntas e conversas também permitem que a criança organize ideias, amplie o vocabulário e comece a considerar outros pontos de vista. Dos sete aos 11 anos: avanço do raciocínio lógico No estágio das operações concretas, aproximadamente dos sete aos 11 anos, a criança desenvolve maior capacidade de utilizar a lógica. Ela consegue classificar objetos, estabelecer sequências, comparar quantidades e compreender relações entre diferentes informações. Uma mudança importante é a compreensão da conservação.

A criança passa a reconhecer que a quantidade de uma substância não muda apenas porque sua forma ou seu recipiente foi alterado. Também desenvolve o conceito de reversibilidade, percebendo que uma ação pode ser desfeita mentalmente. Esse raciocínio costuma funcionar melhor quando está relacionado a objetos, exemplos e situações observáveis. Problemas muito abstratos ainda podem causar dificuldade, enquanto experiências concretas favorecem a compreensão. O estudante também começa a considerar diferentes características ao mesmo tempo.

Em vez de classificar objetos apenas pela cor, pode organizá-los conforme tamanho, formato e outras propriedades. "Durante essa etapa, atividades que permitem observar, comparar, testar hipóteses e explicar procedimentos ajudam o estudante a organizar o pensamento lógico", destacam os educadores do Colégio Anglo São Roque.

Na rotina escolar, materiais manipuláveis, experiências, resolução comentada de problemas e análise de situações reais podem contribuir para o aprendizado. A explicação do próprio raciocínio também permite que o aluno identifique erros e compreenda caminhos diferentes para chegar a uma resposta.

A partir dos 11 anos: pensamento abstrato

O estágio das operações formais começa, segundo Piaget, por volta dos 11 anos e se estende pela adolescência. A principal mudança está no desenvolvimento da capacidade de pensar sobre situações hipotéticas e conceitos abstratos. O adolescente consegue analisar possibilidades que não estão presentes, formular hipóteses e considerar diferentes consequências antes de tomar uma decisão. Também pode compreender com maior profundidade temas como justiça, liberdade, ética, política e relações sociais. O raciocínio dedutivo se torna mais elaborado.

Diante de um problema, o jovem pode avaliar informações, criar explicações possíveis e testar mentalmente cada alternativa. Essa capacidade aparece em atividades científicas, debates, produção de argumentos e resolução de questões complexas. A possibilidade de pensar abstratamente não significa que todos os adolescentes utilizarão essa habilidade da mesma maneira em todas as situações. O domínio depende do conteúdo, da experiência e das oportunidades de exercitar o raciocínio. Como ocorre a construção do conhecimento Piaget explicou a aprendizagem por meio de dois processos principais: assimilação e acomodação. A assimilação ocorre quando uma nova informação é interpretada a partir de conhecimentos que a criança já possui. Se ela conhece cachorros e encontra outro animal de quatro patas, pode inicialmente chamá-lo de cachorro.


Ao perceber diferenças entre as espécies, precisa modificar sua compreensão. Esse ajuste é chamado de acomodação. Os dois processos ajudam a reorganizar os conhecimentos. A criança utiliza o que já sabe para interpretar uma situação e altera seus esquemas mentais quando a realidade não corresponde à explicação anterior. A teoria de Piaget ajuda famílias e educadores a compreender que determinados erros fazem parte da construção do pensamento. Em vez de fornecer imediatamente todas as respostas, o adulto pode fazer perguntas, apresentar situações concretas e incentivar a criança a explicar como chegou a determinada conclusão. Observar a forma como o estudante raciocina pode ser tão importante quanto verificar se a resposta está correta.

Quando uma dificuldade persiste ou interfere de maneira significativa na aprendizagem e na rotina, família e escola devem trocar informações e avaliar a necessidade de orientação especializada.

Para saber mais sobre Piaget, visite: https://www.todamateria.com.br/jean-piaget/ https://novaescola.org.br/conteudo/1709/jean-piaget-o-biologo-que-colocou-a-aprendizagem-no-microscopio